Gostaria de começar falando sobre a história do movimento negro. Como povo oprimido, temos em comum o fato de que nossos comunicados à imprensa e nossas declarações, quando chegam aos meios de comunicação, que são controlados pelo opressor, são frequentemente distorcidos e a imprensa nunca diz a verdade.
A verdade é que o único caminho que os negros neste país podem seguir é o caminho revolucionário. Como sabem, os afro-americanos foram roubados da África. Fomos trazidos para este país como escravos. Não tínhamos escolha quanto a quem devíamos nos unir, como devíamos nos unir, onde viveríamos ou qualquer outra coisa. Tivemos, é obvio, de enfrentar a mais brutal opressão de que qualquer outro poco jamais enfrentou. Em “Os Condenados da Terra”, dizia-se que os negros são os mais condenados. Estou inclinado a acreditar nisso, porque certamente enfrentamos a opressão mais brutal. Fomos despojados de tudo. Fomos os mais desumanizados de todos os povos oprimidos. Tendo sido despojado de sua cultura, o homem negro agora se encontra dentro de um país e dentro de um mundo com os quais ele deve começar a dar seu melhor para se relacionar.
Agora enxergamos que os negros nos Estados Unidos são um povo colonizado, diferente de um povo explorado. Os povos explorados são oprimidos, assim como os povos colonizados. Mas os povos explorados são oprimidos, principalmente, por razões econômicas. Os povos colonizados não são explorados apenas por causa da riqueza econômica, mas também sua cultura, seus valores, sua língua e todo o seu modo de vida lhes são tirados e são forçados a se identificar com o opressor, e isso é muito importante porque significa que, à medida que os dois grupos oprimidos se movem, os explorados e os colonizados, eles devem seguir caminhos diferentes. Por exemplo, é fato que existem pessoas brancas neste país que são exploradas — elas não são colonizadas. Elas podem ser despojadas de riqueza econômica, mas têm os mesmos valores, a mesma cultura, a mesma história e a mesma língua que seu opressor branco e rico.
Mas agora vamos examinar os negros neste país. Embora também sejamos privados de riqueza econômica e sejamos pobres, também somos privados de nossa cultura, nossa língua, nossa história e nosso próprio modo de vida. Isso, certamente, define a diferença entre os brancos pobres e os negros neste país. E caracteriza, em todo o mundo, a diferença entre colonização e exploração. Ousamos dizer que a colonização entra em jogo quando há pessoas de uma raça diferente oprimindo outra raça. Deixe-me dar um exemplo claro. Na Argélia de hoje, o francês é ensinado; nas escolas do Vietnã, há vinte anos, o francês era ensinado, o francês era a língua nacional. Na Argélia de hoje, embora o árabe seja a língua nacional, à medida que os argelinos começam a lidar com o processo de descolonização, eles ainda são forçados a usar o francês nas séries mais avançadas. Isso significa que os argelinos foram privados de sua língua. Eles foram forçados a falar a língua do seu opressor. Quando alguém é forçado a falar a língua do seu opressor, ele começa a pensar que seu opressor é, de fato, superior e, por definição, seu próprio modo de vida – sua cultura e seu sistema de valores – é inferior. Não é verdade que os argelinos que chegaram ao topo tiveram, na verdade, que se tornar franceses? O mesmo se aplica aos vietnamitas e aos negros americanos. Se querem ser aceitos pelo opressor, têm de se tornar cópias exatas deste. Quero referir este contexto porque é importante para compreendermos os movimentos que se verificam atualmente no mundo. Deixe-me dar outro exemplo: é fato que os Estados Unidos da América, que são a maior potência imperialista do mundo, exploram a Europa, mas exploram a Europa economicamente. Eles colonizam o Terceiro Mundo — ou seja, o mundo de cor — Ásia, África e América Latina.
Embora 65% da economia francesa seja financiada por empresários americanos, o povo francês ainda pode falar sua própria língua e manter seu próprio tipo de cultura. Tomemos, por exemplo, a ilha de Porto Rico. A ilha de Porto Rico, onde mais de 85% da população fala inglês nas suas próprias escolas durante três anos e espanhol durante dois anos, é, novamente a questão da raça e do complexo de superioridade da sociedade ocidental, construído em torno de uma ideia entranhada de que, por algo ser branco seria superior. Por isso, dizemos que os negros na América e talvez os povos colonizados em todo o mundo não estão apenas lutando contra um sistema econômico, mas também contra um sistema racista. Os negros neste país estão lutando contra dois males. Um dos males é o racismo. O segundo é o mal do capitalismo, ou imperialismo, que é o estágio mais elevado do capitalismo. Como nossa luta é contra esses dois males, devemos desenvolver uma ideologia que enfrente ambos – uma sociedade livre do racismo e uma sociedade que seja de fato anticapitalista, e onde o capitalismo não possa funcionar. Esse é o objetivo da luta negra neste país. Se esses objetivos não forem esclarecidos, o movimento será subvertido: nos tornaremos capitalistas negros tentando desfrutar de um pedaço do bolo americano, tentando nos identificar com nosso opressor e ajudando a oprimir o resto do mundo.
Atualmente, há vários grupos atuando no movimento de libertação negra neste país. Não vou expor a filosofia desses grupos. Não vou falar por eles, porque não gostaria que seus representantes falassem por nós. É claro que há a Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor (NAACP), o Congresso pela Igualdade Racial (CORE), o Comitê de Coordenação Estudantil pela Não-Violência (SNCC), a Conferência da Liderança Cristã do Sul (SCLC) e o Partido Panteras Negra (BPP). A maioria desses grupos tem lutado basicamente por um pedaço do bolo americano, pelo menos até recentemente. Ou seja, eles foram excluídos do sonho americano, e muitos deles pensavam que, se adotassem os costumes, o modo de vida e a cultura do opressor, seriam aceitos e também poderiam desfrutar dos frutos do imperialismo americano. Mas hoje, entre a geração jovem de negros neste país, está se desenvolvendo uma ideologia que diz que não podemos, de fato, aceitar o sistema. Isso diferencia o ativista negro do revolucionário negro. O ativista negro é aquele que grita e berra sobre os males do sistema americano, tentando ele próprio se tornar parte desse sistema. O grito do revolucionário negro não é sobre ser excluído do sistema, mas sobre querer destruir, derrubar e demolir completamente o sistema americano e iniciar um novo que permita que à humanidade fluir. Permaneço, então, ao lado do revolucionário negro e não do lado do ativista negro.
A palavra “revolução” é facilmente distorcida, e ficamos muito confusos. Uma revolução não pode começar até que se modique o poder. Deixe-me dar um exemplo. Fidel Castro lutou nas montanhas durante anos – isso não foi a Revolução Cubana. A Revolução Cubana só começou quando Fidel Castro entrou em Havana, expulsou Batista e seus lacaios americanos e disse: “Hoje reivindico esta ilha para as massas do povo cubano”. Antes da revolução, o revolucionário passa pelo período chamado de luta armada, quando as forças revolucionárias se envolvem em batalhas contra as forças que mantêm o status quo. Hoje, em todo o mundo, os povos oprimidos estão entrando no estágio da luta armada. Vários já estão na fase da revolução – Cuba, China e alguns outros. Os negros neste país enfrentam um problema que não sei se resolveremos até que, de fato, se tivermos sucesso, iniciemos uma revolução neste país.
Como lutamos contra o racismo e o capitalismo, não temos certeza de que, apenas por termos abolido o capitalismo e, digamos, estabelecido um Estado socialista ou comunista, também eliminaremos automaticamente o racismo. Muitas pessoas dizem que, quando se estabelece um Estado socialista, o racismo é automaticamente destruído, mas não temos certeza disso, devido à brutalidade racista neste país e ao nosso entendimento das teorias da supremacia branca. E, enquanto tentamos lidar com esses problemas, teríamos que pedir às forças no mundo que lutam para se libertar do imperialismo que talvez nos dessem algum tempo, porque esse será um problema difícil. Para nós, o racismo é mais importante, porque fomos escravizados pelo racismo enraizado nos brancos. Eles nos escolheram porque éramos negros. Eles tinham vários brancos para escolher em seu próprio continente, a Europa, mas decidiram vir para a África e, por alguma razão, escolheram a gente. Eles dizem que foi porque éramos fisicamente superiores! Talvez haja alguma verdade nisso, e veremos. Se houver, logo descobriremos.
Para muitos negros neste país, Fanon está se tornando um dos homens de quem estamos obtendo grande parte de nossa força ideológica, e Fanon é realmente muito importante. Ele foi enviado à Argélia para trabalhar para os franceses. Todos conhecem a história: ele se juntou às forças de libertação e foi ferido, tornou-se médico das forças de libertação, foi para Gana representando o governo de libertação argelino e começou a escrever o profundo livro Os Condenados da Terra. Agora, o que Fanon nos diz é precisamente o que começamos a saber — que devemos nos alijar dos valores do sistema que nos foram ensinados. Isso, é claro, é um problema muito difícil, especialmente para os negros que vivem aqui e que são continuamente subjugados através da propaganda.
Há alguns anos, eu era a favor dos judeus de Israel. Queria saber por que os árabes estavam incomodando os judeus – não conseguia entender isso. Não é engraçado: a maioria dos americanos acredita que os árabes estão cometendo crimes contra os judeus, porque vivemos em uma sociedade que postula afirmações e essas afirmações são aceitas como verdades e nunca questionadas. Por causa disso, nos encontramos em um mundo nebuloso que torna muito difícil agir com clareza, encontrar a ideologia correta e as posições corretas à medida que avançamos. Isso se torna muito importante por várias razões. Quero abordar o problema do sionismo e como nós, negros deste país, o vemos, e qual deve ser nossa relação com o mundo árabe e com as forças que lutam contra os povos árabes.
Os sionistas têm uma propaganda ofensiva muito eficaz. Eles afirmam sua propaganda e todos a aceitam como verdade, colocando na defensiva qualquer um que tente questioná-la, chamando-o de antissemita. É um truque muito, muito bom: ninguém quer ser antissemita, ninguém quer odiar pessoas apenas por causa de sua raça. A maneira que encontramos para neutralizar a propaganda ofensiva dos sionistas é afirmar nossa propaganda, afirmá-la ofensivamente, afirmá-la como verdade e não nos curvarmos, questionarmos ou discutirmos com a propaganda dos sionistas; essa é a única maneira que encontramos para lidar com eles. Se os sionistas afirmam que têm direito a Israel, então afirmamos que os palestinos têm direito à Palestina. E uma vez que afirmamos isso, pode haver espaço para discussão. Se aceitarmos a afirmação deles e começarmos a discutir com os sionistas, nunca haverá espaço para discussão. Mas uma vez que afirmamos que os palestinos têm direito à Palestina porque ela lhes pertence, então pode haver espaço para discussão neste país. Foi exatamente isso que fizemos: nos esforçamos muito para calcular afirmações que, pela primeira vez, colocariam os sionistas na defensiva neste país e os obrigariam a defender seu chamado Estado de Israel, que todos sabemos ser um Estado injusto e certamente imoral.
O que torna as forças do sionismo tão eficazes em sua propaganda é que os sionistas têm algo mais: não apenas afirmam sua versão como um fato e colocam qualquer um que a questione na defensiva, chamando-o de antissemita, mas também usam o assassinato de seis milhões de judeus como justificativa para o chamado Estado de Israel. Eles dizem: “Seis milhões de judeus foram assassinados por Hitler; temos direito a Israel”. E isso é algo muito perigoso. É fato que seis milhões de judeus foram massacrados por Hitler, mas o fato de seis milhões de judeus terem sido assassinados por Hitler não dá aos sionistas o direito de tomar as terras árabes. Se os sionistas – quero ter certeza de usar o termo correto, pois não quero ser chamado de antissemita – se, de fato, os sionistas estão preocupados por terem perdido seis milhões de judeus na Alemanha, se estão preocupados com o tratamento que Hitler lhes dispensou, então me parece claro que eles deveriam tomar as terras da Alemanha para seu Estado natal, já que foi a Alemanha que combateu contra eles.
Acho que a razão pela qual o chamado Estado de Israel recebe apoio das potências ocidentais é precisamente porque o papel que Israel desempenha agora foi planejado pelos imperialistas. Não preciso contar a história, que quando Balfour lhes deu a terra era totalmente impossível para eles fazerem com que os judeus europeus se mudassem para Israel[1]. Foi somente após o massacre dos judeus na Alemanha por Hitler que o Estado de Israel se tornou uma realidade. Até então, eles não haviam conseguiam um Estado para onde se mover. Ninguém queria sair e ninguém queria ir. Quem iria querer ir para o deserto, exceto os palestinos? Esse é um ponto muito importante para entendermos e lidarmos com a propaganda dos sionistas. Porque, uma vez que você sente pena e empatia por uma pessoa, você lhe dá margem de manobra. E, é claro, com a propaganda sionista dizendo às pessoas que não havia ninguém na Palestina – “era uma terra sem povo para um povo sem terra” – e transformando essas afirmações e propaganda em fatos na mente do nosso povo, torna-se quase impossível lidar com isso. Agora, nós neste país, como um gesto de solidariedade com nossos irmãos no mundo árabe, pretendemos lidar com os sionistas, por várias razões. Uma razão é que os mesmos sionistas que exploram os árabes também nos exploram neste país. Isso é um fato. E isso não é antissemitismo.
Nossa propaganda deve ser ofensiva, não podemos simplesmente assumir uma posição de autodefesa. Isso certamente pode ser relacionado ao combate físico. Che Guevara afirma claramente que a autodefesa nada mais faz do que preservar o status quo. Se alguém quer mudar as coisas, deve agir agressivamente contra o status quo – isso é um fato. E o que os sionistas fazem é fazer você acreditar que, se agir agressivamente contra eles, estará cometendo um ato criminoso. Isso é muito inteligente.
Observamos o movimento deles. O que os sionistas fazem é criar um Estado chamado Israel e, em seguida, dar uma justificativa para esse Estado. As pessoas não questionam mais os fundamentos, os primórdios ou o fato de que o Estado surgiu. À medida que se expandem após cada guerra, o território que conquistam é incorporado ao “Estado de Israel”. Ninguém mais questiona esse Estado, e eles continuam a se expandir. Sempre se expandindo, incorporando. Expandindo e incorporando. E qualquer um que tente combatê-los se torna um “agressor”.
Agora, estamos cientes: a autodefesa apenas manterá o status quo. Se o Egito, a Síria e a Jordânia assumissem hoje uma posição de autodefesa, sairiam perdendo, porque os israelenses ainda ocupam suas terras. Se querem recuperar suas terras, devem agir agressivamente contra as forças ocupantes. E, à medida que agirem agressivamente, nós também teremos que agir agressivamente. Não há necessidade de falar sobre coexistência pacífica; quem defende a coexistência pacífica está defendendo que o status quo permaneça como está. A única solução é a revolução armada! Aqueles que dizem que podemos coexistir com as forças imperialistas estão dizendo que podemos coexistir com as coisas como estão, que nunca precisamos mudá-las. Mas se estamos sofrendo, precisamos de mudança; e devemos decidir como essa mudança vai acontecer.
Qual é então a nossa posição? Não pretendemos discutir as políticas internas do mundo árabe, essa é uma discussão para os árabes; só podemos apoiar o mundo árabe como acharmos adequado. É claro que podemos ter certas preferências e nos sentimos mais próximos de certos grupos ou certos governos do que de outros. Por exemplo, nos sentimos muito próximos dos comandos na Palestina. Sentimos que eles são o grupo que receberá a maior parte do nosso apoio.
Sentimo-nos fortemente comprometidos com os países árabes que estão armando seu povo, porque se você está do lado do povo, não tem nada a temer do povo. Sentimo-nos fortemente comprometidos com os países que estão construindo governos revolucionários. E não temos medo de dizer isso. Sabemos que a agressão de 5 de junho[2] teve vários objetivos. Um deles era destruir os governos revolucionários do mundo árabe, sabemos disso. E, portanto, apoiaremos esses governos revolucionários da maneira que pudermos, por mais modesto que isso seja. Porque a disseminação desses governos revolucionários no mundo árabe é, de fato, uma ameaça ao imperialismo mundial.
Então, qual é o nosso papel, na nossa opinião, como podemos trabalhar com nossos irmãos árabes? Em primeiro lugar, podemos começar a espalhar a propaganda contra o sionismo e começar a esclarecer e educar as massas do nosso povo. Já começamos a fazer isso. Não só o fizemos publicamente no ano passado[3],mas também, por exemplo, na Convenção Nacional de Novas Políticas em Chicago no ano passado, assumimos a posição de que, se os brancos que se autodenominam revolucionários ou radicais querem o nosso apoio, eles têm que condenar o sionismo. Continuaremos a fazer isso quando trabalharmos com outros grupos – temos que fazer isso. Continuaremos a divulgar isso. Estamos tentando agora, em muitas escolas negras em todo o país, fazer com que a cultura árabe e a língua árabe se tornem de fato parte do currículo, para que possamos começar a saber mais sobre o modo de vida árabe e entender o que os imperialistas estão fazendo. Pretendemos começar a publicar livros de histórias e falar sobre a vida no mundo árabe para que nosso povo se conscientize e comece, tanto quanto possível, a combater a propaganda sionista. A mídia hegemônica nos Estados Unidos da América, que apoia incondicionalmente Israel, infelizmente é controlada pelos sionistas. Pretendemos deixar claro que ajudaremos a luta dos árabes de todas as formas que pudermos, não apenas financeira e moralmente, mas com nossas próprias vidas.
Nós vemos a África como nossa pátria. Isso não é tão improvável assim. Os sionistas criaram uma propaganda de que a Palestina era a pátria, a terra natal dos judeus. E essa propaganda fez com que os jovens judeus sentissem que precisavam se comprometer com sua pátria até a morte. Quando a agressão ocorreu em 1967, milhões de dólares foram arrecadados em toda a América em um piscar de olhos. Os jovens judeus estavam abandonando a escola para ir lutar pela pátria. Eles estabeleceram um Estado em 1948 e ainda assim sentem um vínculo tão forte com ele. Não há diferença em negros irem lutar e defender o Egito. O Egito fica na África e a África é nossa pátria. A civilização mais antiga do mundo vem do Egito. Devemos sentir que fazemos parte dela. Muitos de nós estamos lentamente começando a nos preparar para essa propaganda e para a luta real. Pretendemos combater o imperialismo onde quer que ele esteja, nos Estados Unidos ou em nossa pátria. Portanto, afirmamos muito claramente que, como o Egito está em nossa terra natal, combateremos as forças do imperialismo sempre que elas tentarem invadir nossa pátria e nossa terra-mãe.
À medida que começamos a desenvolver cada vez mais nossa luta, haverá muita subversão. Haverá muitos contratempos. Mas deixamos clara agora nossa posição de que nunca mais seremos intimidados pelos Estados Unidos da América. Nós, melhor do que todos os povos oprimidos do mundo, conhecemos os Estados Unidos – vivemos dentro deles há quatrocentos anos. Ninguém precisa nos falar sobre sua brutalidade, ninguém precisa nos falar sobre sua exploração, nós sabemos disso melhor do que ninguém. Na verdade, podemos contar algo sobre o maior erro dos Estados Unidos da América: ao contrário de outros impérios, que colonizaram povos em suas próprias terras, eles tiveram a audácia de nos tirar de nossa terra natal e nos colonizar em terras que pertenciam a outra pessoa – depois de exterminar os índios, é claro.
Nosso objetivo é lutar com armas nas mãos, nosso objetivo é lutar até a morte. A palavra rendição não existe para nós. É melhor morrermos de pé aos 26 anos do que viver na fome e morrer aos 76. Preferimos morrer primeiro.
Nós nos tornaremos a quinta coluna. Eles não podem nos impedir, por mais que tentem. Não só não vamos para a guerra do Vietnã, como afirmamos com firmeza e clareza que os norte-vietnamitas são nossos companheiros de armas: eles lutam contra o imperialismo, nós lutamos contra o imperialismo. Deixamos claro que vemos os povos árabes não apenas como nossos irmãos, mas também como nossos companheiros de armas. Não estamos preocupados com as contradições entre os países árabes. A história e as forças opressoras os forçarão a se unir e lutar. Eles não têm alternativa; eles devem lutar. O imperialismo é como uma esponja que nunca fica satisfeita até ter sugado tudo; para simplesmente viver, os povos árabes terão que lutar. Para viver, teremos que lutar.
Os jovens vão levar o mundo árabe à vitória. Eles vão liderá-lo como Fátima Bernawi[4] está fazendo. Sim, é muito melhor que todas as mulheres árabes se tornem Fátima Bernawi e sejam exterminadas do que viver sob a vergonha em que o mundo árabe vive atualmente. Sim, todas vocês devem se tornar Lady Fátima.
Este é o início de nossos laços, e nós os fortaleceremos. Trabalharemos mais estreitamente com os estudantes árabes sempre que pudermos. Nossos olhos agora estão abertos: começamos a ver essa artimanha do sionismo; começamos a ver a maldade do sionismo e lutaremos para eliminá-lo onde quer que exista, no Oriente Médio ou no gueto dos Estados Unidos.
Os Estados Unidos são os maiores inimigos da humanidade, e Israel nada mais é do que um dedo dos Estados Unidos da América. Eles desumanizam tudo e em todo o mundo, e nossa luta hoje é uma luta pela humanidade. Não é apenas uma luta para mudar sistemas, é uma luta pela nossa própria humanidade, nossa liberdade e nossas vidas, para ter o tipo de cultura e idioma que desejamos, e de viver, realizar e desfrutar da riqueza da terra. Assim como os vietnamitas estão lutando pela humanidade, assim como o mundo árabe está lutando pela humanidade, assim como nossas forças na África estão lutando pela humanidade, assim como os latino-americanos estão lutando pela humanidade, o homem negro na América está lutando pela humanidade. Estamos com o Terceiro Mundo. Não nos importamos com o que o Departamento de Estado diz, não nos importamos com o que a CIA diz, não nos importamos com o que Lyndon Baines Johnson diz, enquanto tivermos pernas, eles não podem nos impedir de ir para a Argélia. Eles não podem nos impedir de ir para a República Árabe Unida. Eles não podem nos impedir de ir para a Síria. Sempre que vocês nos convidarem, nós iremos. Somos homens. Iremos aonde quisermos ir, aprenderemos o que quisermos aprender, veremos o que quisermos ver, conversaremos com quem quisermos conversar e lutaremos com quem quisermos lutar. Se nos convidarem, iremos.
O mundo está se transformando; os oprimidos estão começando a sentir sua própria força. Estamos começando a sentir nosso poder. É em nossa unidade que encontraremos a vitória, e não estamos preocupados com chegaremos nessa união; as contradições, como eu disse antes, forçarão essa unidade.
Agora, tenho dois sonhos na minha vida. Os meus sonhos estão enraizados na realidade, não na imaginação. Sonho, em primeiro lugar, em tomar café com a minha esposa na África do Sul; e, em segundo lugar, em tomar chá de menta na Palestina.
[1] Em 1917, Lord Balfour cedeu à pressão sionista e declarou que o governo britânico era a favor da criação de uma “terra nacional” para os judeus na Palestina. O governo britânico contradisse essa declaração ao acrescentar que nada deveria ser feito para prejudicar os direitos civis e religiosos dos habitantes não judeus da Palestina — os árabes.
[2] Referência ao dia da Naksa (“retrocesso”, em árabe), data que marca o êxodo palestino de 1967 com o início da Guerra dos Seis Dias, quando Israel ocupou a Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jerusalém Oriental, as Colinas de Golã e o Sinai.
[3] A referência é ao Boletim Informativo do SNCC, publicado no verão de 1967, que expôs as táticas sionistas e o terrorismo na Palestina.
[4] Fatima Bernawi, mulher palestina negra de Jerusalém, condenada à prisão perpétua pelas forças de ocupação israelenses por suas atividades de resistência como militante da Al Fatah – OLP.














